Literatura, música, vestibular e vida

"A madureza, essa terrível prenda que alguém nos dá, raptando-nos, com ela, todo sabor gratuito de oferenda sob a glacialidade de uma estela..."

Publicado em Educação | 05/05/2019 | 0 | 230
Literatura, música, vestibular e vida
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Era um dia comum de aula, “bom dia, fala bom dia!” e eles todos respondiam, uns mais acordados, outros mais distraídos ou desleixados mesmo, mas cada um com seu modo de acarinhar: “bom dia!”. A energia do segundo ano do ensino médio é vivaz, perdida não, solta: eles não estão chegando do ensino fundamental, como o primeiro ano, e nem estão neuróticos pelos vestibulares, como o terceiro; eles estão no meio do caminho. As pedras aparecerão, mas eles ainda não têm do que não esquecer.

No módulo 37 da apostila 13, depois de todos se ajeitarem nos seus espaços de criação, eu, o professor, chamo um exercício: “pessoal”, digo em tom jocoso e com ar ponderado, “vamos lá, esse é da segunda fase da FUVEST, dá pra quebrar a cabeça”. Ouço um riso aqui, e um tom de deboche ali... sei o que eles estão pensando, mas faço tudo conforme o protocolo. Começo a leitura do exercício: “entrevistado por Clarice Lispector, para a pergunta “Como você encara o problema da maturidade?”, Tom Jobim deu a seguinte resposta: “Tem um verso do Drummond que diz: ‘A madureza, esta horrível prenda... ’ Não sei, Clarice, a gente fica mais capaz, mas também mais exigente...”. Fui interrompido antes de terminar a leitura: “professor não dá...”, diz um deles; olho para o outro lado e: “cara, imagina isso, é impossível”. Eu ainda os observo, imóvel, tentando entender, quando um deles, aquele mais corajoso e para o qual um professor sempre olha a fim de saber se está fazendo tudo direito numa aula, diz: “um exercício da FUVEST, de segunda fase, traz uma conversa de Clarice Lispector e Tom Jobim, que, não satisfeito, chama o Drummond, é impossível!”, e a classe ri.

Pronto, agora a aula começou, eu pensei.

Eu também estou rindo, quero ouvi-los falar: “professor, isso dá uma crônica”, “uma crônica? Isso dá uma temporada no Netflix”, “imagina a Clarice, com toda aquela, como é mesmo que você disse...?”, “fleuma”, eu respondo. “isso, imagina a Clarice, fleumática”, a aluna diz, olhando pra mim e esperando minha aprovação, “perguntando ao Tom Jobim...”. Na outra ponta alguém diz, “ele responde ‘é pau, é pedra, é o fim do caminho...’”, e a classe toda ri. Surpreso, eu digo: “uau, você conhece Tom Jobim?!”. “Meu pai é músico, professor, cresci ouvindo música velha”, e me dá uma piscadinha com ar de senhorio.

Eu estou em êxtase. Coloco a apostila do lado e entro na prosa deles. “Bem, por falar em velha, sobre o que conversam Clarice e Tom?”, eu questiono, e ouço de modo meio polifônico: “sobre maturidade!”. “E falam o quê?”, aguardo: “Cara, o que é ‘prenda’?”. Na outra ponta alguém diz, “não é aquilo que a gente ganha na barraca de festa junina?”. “É mesmo, é tipo um presente!”. “E, então?”, pergunto eu, “o que podemos entender da resposta dele?”. “Isso não é uma contradição, professor?”. Digo, “por quê?”. “Se é um presente, uma prenda, é uma coisa boa. Então, como pode ser horrível?”. “Ótimo, e como se chama essa figura de linguagem?”, questiono. “Paradoxo”, a maioria responde. “Há ainda outra figura importante nessa fala, qual é?”. Eles estão investigando, parecem ter esquecido que estão fazendo uma questão de vestibular: “’madureza, horrível prenda...’ é uma comparação, não é?”, “uma metáfora!”. “Sim”, respondo-lhes sorrindo, “é uma metáfora”.

Eu estava me divertindo com o Espanto – à guisa de Sócrates - dos meus alunos. Entretanto, o melhor ainda estava por acontecer. “Qual é o poema que ele está falando, professor?”, alguém questionou. Eu sabia o que viria, sabia qual era o poema, mas jamais tiraria o protagonismo deles no ápice da aprendizagem, “pegue o tablete aí, vamos pesquisar...”, antes de eu terminar, o outro diz, “chama ‘A Ingaia Ciência’, e é do livro ‘Claro Enigma’, que cai na FUVEST”. “O que é ‘Ingaia’, professor?”. Já estou rindo e digo, “Bem, Drummond, nesse poema, está dialogando com um conceito do Nietzsche, o qual fala sobre o eterno retorno”. Não adianta, a sala toda ri. E o meu aluno, aquele do início, lamenta: “Clarice, Tom Jobim, Drummond e Nietzsche na segunda fase do vestibular da FUVEST, não vai dá pra mim, sou de exatas, professor”, todos rimos.

É claro que não os deixei sem respostas. Fomos até o fim com a aula, o exercício e a motivação. Todavia, isso me angustiou mais uma vez. Voltei a pensar no que estamos fazendo quanto à finalidade da educação no Brasil.

A FUVEST é a fundação responsável pela elaboração do vestibular da USP, a universidade mais concorrida do país. Trata-se de uma prova bastante conceitual, ou seja, é necessário saber uma infinidade de conceitos teóricos que levam qualquer cidadão comum à exaustão. São assuntos das mais variadas áreas do conhecimento, isto é, não são só as obras literárias, de que falavam os alunos do segundo ano, mas também a Física, a Química, a Matemática, a História, a Geografia e uma listagem significativa de tópicos os quais os alunos devem, em sua maioria, decorar, caso queiram ocupar uma das vagas. Não intento aqui um discurso que desqualifica as provas enquanto mecanismo de avaliação, mas repudio a ideia de ser o único caminho; e o que é mais grave: a finalidade dos anos escolares.

Durante cerca de dezesseis anos, em média, um aluno passa a sua vida vinculado a uma instituição incapaz de lidar com todos os anseios do mundo contemporâneo. Há tempos, a educação foi terceirizada à escola, e, metonimicamente, centrada na figura do professor, que, assustado com todas as suas obrigações acadêmicas e institucionais, torna-se um diletante quanto às questões que envolvem a formação de um indivíduo. No final do ensino básico, no assombroso ensino médio, os alunos são inseridos em um universo altamente complexo de conteúdos científicos e são sistematicamente treinados a responder questões de múltipla escolha, num movimento robotizado e que deixa de fazer sentido, o que os leva ao desengajamento em relação à escola. Além disso, e ainda mais complexo, em muitos casos, o objetivo para o qual eles foram treinados – passar no vestibular – não é atingido, o que traz, então, a sensação de fracasso e de impotência.     

A angústia dos meus alunos, no início da aula, é bastante pertinente. Não se deve tratar a educação de um indivíduo como acúmulo de informação, é muito mais do que isso. Para se pensar um projeto de escola é preciso antes se construir um projeto de sociedade, não como um ideal, mas como uma referência, da qual devemos nos aproximar e por ela lutar. O Brasil ainda está bem longe disso.

Quanto ao segundo ano, mais uma vez eles me ensinaram o que é ser professor: não vi ali uma questão da FUVEST, mas um cenário por meio do qual é possível produzir sentido. Não queria deles o medo dos autores. Não queria que eles encarassem Clarice, Tom Jobim, Drummond e Nietzsche como uma obrigação, mas como uma possibilidade. Eles sabem a importância de cada um desses nomes, mas se sentem amedrontados, pois estão vinculados ao vestibular, ou seja, não é para lerem um poema de Drummond ou uma narrativa de Clarice por prazer; nem para indagarem a vida como Nietzsche; ou – o pior de tudo - para colocarem a genialidade brasileira de Tom Jobim em seus smartphones, num dia de caminhada qualquer, que estamos ensinando-os. Não! Eles vivem tais nomes exclusivamente como grades curriculares: como grandes pedras no caminho das quais jamais se esquecerão. Quero eu estar errado. Quero eu acreditar que eles conseguirão olhar para além das cinco alternativas do vestibular. Afinal, na prova, uma delas sempre está correta; mas, na vida, nem sempre essa alternativa existe. E, às vezes, é com Clarice, Tom Jobim, Drummond e Nietzsche que precisamos lidar na ausência de respostas. De uma coisa eles estavam certos, eu sei: era uma crônica, aliás, é.

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