Da Argentina: Operação Massacre

Publicado em 1957, "Operação Massacre" narra os bastidores da ação policial que resultou no fuzilamento clandestino de doze civis acusados de conspirar contra o governo ditatorial que depusera Perón um ano antes. Ao empregar técnicas narrativas da ficção, esta reportagem inaugura o jornalismo literário na Argentina.

Publicado em Repertório Cultural | 05/05/2019 | 1 | 120
Da Argentina: Operação Massacre
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Era noite de 9 de julho na capital argentina. Um grupo de homens jogava xadrez num café em La Plata, província de Buenos Aires. Dentre eles estava um jovem de 29 anos; até então, revisor textual, escritor e apaixonado pelos mistérios narrados nas sagas policiais. Tiros. Xeque-mate? Não! Assustado, Rodolfo Walsh, juntamente com os demais enxadristas, levanta-se e aspira pela chegada à casa onde morava. O percurso é curto, mas o horror não. Duas horas se passam até ele se deparar com os destroços provocados pela barbárie dos homens. Destruída, sua residência passa a ser um quartel general de combate. O que fazer? Escrever talvez fosse a melhor solução.

A partir deste fragmento de texto, inspirado na proposta do livro “Operação massacre”, pode-se dialogar sobre e estética adotada pelo escritor Rodolfo Walsh. Trata-se de uma narrativa autodiegética: tal como na lenda joponesa - da obra cinematográfica de Akira Kurosawa - a qual narra um observador que, ante ao deslumbramento do quadro, é capturado pela obra e passa a fazer parte dela, Walsh torna-se herói da sua narrativa. A paixão pelos contos policiais o tornou um viciado em mistérios, fazendo com que ele revelasse neste livro uma empolgante trama, real, valendo-se do jornalismo investigativo.

Considerada uma longa reportagem, “Operação massacre” é uma obra densa. O leitor é conduzido por uma escritura misteriosa à Argentina ditatorial da segunda metade do século XX e sente o impacto do talento literário do escritor ainda nos primeiros parágrafos do introito. A narração, então, é feita em primeira pessoa. Tem-se por certo que os leitores estrangeiros, ou que não conhecem a história remota do país em que a obra é ambientada, deverão se preocupar em entendê-la. Walsh está escrevendo uma reportagem, um fato não ficcional, portanto não é sua prioridade situar o leitor dessa maneira, naturalmente. E é realmente uma história complexa, repleta de lacunas e incertezas, características típicas dos regimes militares.

Os capítulos do livro são relativamente curtos e a narrativa, mesmo com informações que exigem conhecimento prévio dos fatos, consegue capturar o leitor que se atenta à beleza da investigação jornalística: Walsh consegue aproximar o leitor dos personagens e dos acontecimentos.

Reverenciado por grandes nomes da literatura hispano-americana como Jorge Luis Borges, Adolfo Bioy Casares e Gabriel García Márquez, o fator que mais contribuiu para a respeitável expansão da obra de Rodolfo Walsh foi a constatação de ele se tornar um desaparecido político e um ativista, de esquerda, preso pela famigerada ditadura militar nos anos 1970. No entanto, em momento algum, a sua literatura mostra-se como sendo subversiva. Há sinuosas pinceladas do seu engajamento político e da crítica ao debate público entrelaçado à narrativa policial. É um trabalho artesanal, feito de detalhes. Característica típica da investigação narrada. E que deixa evidente a criatividade do escritor que, aliás, destaca-se não só por isso, mas também, pela beleza existente na arte de apurar e investigar: no jornalismo.

Ficha Técnica:

Título original: OPERACIÓN MASACRE
Tradução:
Hugo Mader
Capa:
João Baptista da Costa Aguiar
Companhia das Letras, 2010

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