O Reino Fake dos News Céus

"Nos somos seres inseguros e encontramos nesse ato uma forma de aproximação, isto é, ao revelar um “segredo” de alguém para outra pessoa, posso ganhar a confiança dela e, logo, nos unimos ao redor de uma mesma causa: a vida alheia"

Publicado em Comportamento | 30/04/2018 | 0 | 507
O Reino Fake dos News Céus
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Uma parábola é um gênero textual de cuja tipologia narrativa se extrai um ensinamento moral, ou seja, é possível pensar a condição humana – suas virtudes e misérias - e suas relações com o mundo a partir de alegorias simples feitas com metáforas acessíveis ao espectador mais iletrado. Não é por outra razão que grandes líderes, sobretudo religiosos, valiam-se de tal recurso para dialogar com o público. Jesus, por exemplo, tendo em sua plateia homens da ordem dos trabalhadores braçais, encontrava nesse gênero o espaço perfeito para relacionar o cotidiano a sua complexa filosofia, e produzir, assim, de modo lúdico, uma elucidação sobre o Reino dos Céus.

Pois bem! É nesse mesmo espírito que trago um causo parabólico dentre os vários que ouvi lá pelos sertões das Minas Gerais, quando, há alguns anos, buscando me compreender, usei Guimarães Rosa como desculpa: caminhei pelos cantinhos de sua poética nos cantinhos de sua geografia - mas isso é tema para outra prosa. Enfim, quero contar-lhes, hoje, o seguinte:     

Certa vez um jovem, insatisfeito com sua vida, decidiu espalhar uma fofoca a respeito de um homem mais velho. Ele dizia por todos os cantos da cidade que o homem era um velho louco e que falava palavras estranhas. 

A fofoca, como toda história dessa natureza, ganhou rápidas proporções: as pessoas passaram a ignorar o homem e a acusá-lo de insanidade. Isso o levou ao isolamento e à depressão. 

De início, o jovem se sentiu bem com sua atitude, mas, vendo a solidão do velho, ele se constrangeu e passou a buscar um modo de se desculpar. Arrependido, o transgressor foi falar com o ofendido, que vivia, agora, sozinho, no topo do prédio mais alto da cidade.

De modo sábio, o pobre velhinho recebeu o jovem fofoqueiro e disse que poderia perdoá-lo se, antes, ele realizasse duas tarefas: 

- Pegue uma folha de papel, disse o velho, rasgue em vários pedacinhos e sopre ao vento para toda a cidade.

O garoto assim o fez. 

-  Agora, desça lá, junte cada um deles e me traga a folha inteira.

Espantado, o jovem entendeu que seria impossível. E o sábio falou - assim é uma fofoca, rapaz: quando feita, feita está.

Nos tempos de Jesus, talvez, alguém o questionasse “o que isso quer dizer, mestre?”; e Ele, seguramente explicaria. Todavia, na minha pequena narrativa, a temática se evidencia sem muitos mistérios: falamos da fofoca, da detração, um dos “pecados mais saborosos” já experimentados pelo homem. Digo mais saborosos com ênfase, pois estudos já comprovaram o prazer que sentimos ao realizar tal ação. Nos somos seres inseguros e encontramos nesse ato uma forma de aproximação, isto é, ao revelar um “segredo” de alguém para outra pessoa, posso ganhar a confiança dela e, logo, nos unimos ao redor de uma mesma causa: a vida alheia. 

Há uma forma de fofocar no contemporânea bastante interessante. Aliás, nos últimos tempos, eu diria que desenvolvemos uma habilidade para fofoca incomum, como se tivéssemos sofisticado nossa capacidade de inserção no meio e aprimorado as técnicas que acentuam a nossa insegurança e o medo de estarmos sozinhos: são as já conhecidas Fake News. Em tradução livre, isso quer dizer Notícias Falsas.

 As redes sociais são as ágoras do contemporâneo. São aqueles espaços públicos pelos quais os cidadãos gregos transitavam e vivenciavam a polis (cidade-Estado na Grécia Antiga). Contudo, com um agravante: em razão de seu funcionamento e de sua capacidade, as redes sociais têm uma força impressionante. Ora, não estamos mais falando das constituições físicas e geográficas, mas do universo atômico da internet, lugar etéreo, onde as leis são incertas e cujas fronteiras são invisíveis ou até mesmo não existem. 

Não é preciso dizer a capacidade de capilarizar uma informação da internet. Podemos fofocar em um nível inimaginável. Entretanto, é importantíssimo ressaltar o aprimoramento dessa ação. Uma fofoca é a distribuição de informações que podem ser verdadeiras. Com o intuito apenas de disseminá-la, o detrator, às vezes, está falando a verdade. No caso das Fake News, não. Trata-se da divulgação de informações falsas, surreais, sem a menor conexão com a realidade e que são viralizadas de modo irresponsável e bastante nocivo para um indivíduo ou uma sociedade. 

O mais impressionante nessa prática não é o fato de circularem mentiras pelo espaço público, mas o modo como as pessoas se reconhecem e compactuam com o que está sendo propagado. Um estudo produzido pelo MIT (Massachusetts Institute of Technology), nos Estados Unidos, revela que a probabilidade de uma notícia falsa ser compartilhada na internet é até 70% maior do que a de uma notícia verdadeira. E o que é mais grave, segundo um dos pesquisadores, Sinan Aral, o que faz a diferença mesmo são as pessoas, que acabam mais atraídas pelas notícias falsas porque, geralmente, são mais saborosas.

Parece que o narcisismo se tornou ainda mais sintomático: as pessoas divulgam o que querem ver ou o que acreditam ser verdadeiro, aquilo com os quais elas compactuam; ou, se não, creditam apenas pelo prazer da exposição egóica e da necessidade de pertencimento. Mas é importante reafirmar que isso não é nada além da autopromoção fajuta e desesperada de um humano cansado de si mesmo e projetando suas carências e necessidades em um outro espaço. 

Talvez, hoje, Jesus nos explicasse essa prática com parábolas cibernéticas e chegaríamos a uma mesma conclusão: são falsos céus inventados apenas em um novo meio, mas, não se engane, se você é adepto dessa prática, o maior prejudicado é você. E como disse o nosso velho, não tem volta: quando feito, feito está. 

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